
Camelôs em SP: proposta quer acabar com insegurança dos ambulantes

Em meio ao fluxo apressado das ruas de São Paulo, entre buzinas, estações lotadas e corredores comerciais como Brás e Rua 25 de Março, existe uma cidade paralela que raramente aparece nas estatísticas econômicas tradicionais: a dos camelôs e ambulantes que sustentam milhares de famílias todos os dias.
Segundo levantamento do DIEESE, a capital paulista possui mais de 12,6 mil trabalhadores ambulantes espalhados por regiões de grande circulação. A maioria atua sem registro formal, enfrenta jornadas exaustivas e depende exclusivamente das vendas do dia para sobreviver. Dados da pesquisa apontam ainda que cerca de 56% trabalham sem autorização da prefeitura e quase 30% ultrapassam 51 horas semanais de trabalho.
Os números fazem parte do estudo “Mapeamento dos Trabalhadores Ambulantes na Cidade de São Paulo”, divulgado pelo DIEESE em 2026.
(Mapeamento dos Trabalhadores Ambulantes – DIEESE)
Por trás das barracas improvisadas e dos corredores apertados existe uma realidade muito mais profunda do que o simples comércio informal. Para muitos, vender nas ruas deixou de ser escolha há muito tempo. Tornou-se saída para o desemprego, para a dificuldade de reinserção profissional e para o aumento do custo de vida nas grandes cidades.
Em São Paulo, basta caminhar alguns minutos pelo centro para perceber como o comércio ambulante virou parte estrutural da economia urbana. Água, carregadores de celular, roupas, capas de chuva, alimentos rápidos e pequenos acessórios movimentam diariamente uma engrenagem invisível que atende milhões de pessoas.
Ao mesmo tempo, esses trabalhadores convivem com insegurança constante. Apreensões de mercadorias, mudanças de regras municipais e operações de fiscalização criam um cenário de instabilidade permanente. Muitos relatam que passam anos trabalhando em um ponto sem nunca saber se poderão continuar ali na semana seguinte.
É justamente nesse debate que começa a ganhar força uma proposta defendida por João Felipe: a criação de uma licença nacional permanente para trabalhadores ambulantes.
A ideia é simples. Em vez de permissões frágeis, muitas vezes alteradas conforme mudanças de gestão municipal ou decisões administrativas, o ambulante teria um cadastro nacional válido em todo o território brasileiro, garantindo maior estabilidade para exercer sua atividade.
“A informalidade não pode ser tratada apenas como problema urbano. Existe uma população inteira sobrevivendo disso. O trabalhador precisa de dignidade e previsibilidade para continuar colocando comida dentro de casa”, -
João Felipe - Empresário e Articulador Social
A proposta também prevê que a licença tenha critérios básicos de regularização, mas sem burocracia excessiva. O objetivo seria criar um modelo mais estável, impedindo que permissões sejam revogadas a cada troca de governo ou mudança política local.
Especialistas em urbanismo e economia informal vêm apontando que o comércio ambulante dificilmente deixará de existir nas grandes metrópoles brasileiras. Pelo contrário: ele tende a crescer em períodos de crise econômica, desemprego elevado e perda de renda.
Dados recentes mostram inclusive aumento do número de ambulantes registrados como MEI no Brasil, numa tentativa de parte desses trabalhadores acessar direitos básicos, crédito e proteção previdenciária.
Segundo levantamento divulgado pelo portal Diário do Grande ABC, o número de ambulantes registrados como MEI cresceu 45% desde 2023.
( Diário do Grande ABC – crescimento de ambulantes MEI)
Ainda assim, a distância entre regularização e realidade continua grande. Para milhares de famílias paulistanas, o dia começa antes do amanhecer, carregando mercadorias em ônibus e trens lotados, enfrentando chuva, sol e o risco constante de perder tudo em uma fiscalização.
Enquanto parte da cidade passa apressada sem olhar para quem ocupa as calçadas, outra parte sobrevive exatamente ali, no espaço estreito entre a necessidade e a resistência.
E talvez o maior desafio não seja retirar os ambulantes das ruas, mas finalmente reconhecer que eles já fazem parte da economia real da cidade.
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